UM OLHAR INSURGENTE SOBRE A CIDADE
- 20 de mar.
- 4 min de leitura
A arquiteta Laura Castro articula e atualiza para o século XXI práticas materiais, narrativas e performáticas a partir do conceito de desvio (détournement), nascido nas vanguardas artísticas
“Um livro que trate, nos dias que correm, do acontecimento feroz que foi a Internacional Situacionista deve ser lido e recebido com atenção. É muito bem-vindo ao nosso tempo recolocar em pauta um pensamento cuja radicalidade desafiou o mundo à sua volta no âmbito das artes, da política e do conhecimento."
_Rita Velloso,
Professora da Escola de Arquitetura da UFMG
Ao articular práticas materiais, narrativas e performáticas, Laura Fonseca de Castro revela como edificações, territórios e experiências digitais se abrem à invenção e à desobediência estética e socioterritorial.
A arquiteta e urbanista atualiza o conceito de desvio (détournement) para o século XXI, articulando práticas materiais, narrativas e digitais para: Deslegitimar a propriedade e o espetáculo; Atualizar a desobediência socioterritorial; Vulgarizar a criação coletiva. Laura propõe, entre outras provocações, questionar a vida urbana e abrir caminho para invenção e intervenção.
Em Deslegitimar, atualizar, vulgarizar: o (anti)método do desvio a autora reúne, ainda, uma boa dose de cultura pop, experimentação e choque estético – o resultado é uma interpretação do conceito de “desvio”, nascido nas vanguardas artísticas e desenvolvido pela Internacional Situacionista, atualizado como um (anti)método capaz de questionar aspectos que organizam a materialidade, a linguagem e a performatividade na vida urbana.
Os principais focos de Laura Castro (História, Teoria Crítica, Estética, Projeto) demonstram que ela transita entre a técnica da arquitetura e a análise crítica contemporânea, apontando para novos horizontes de criação coletiva.
Entre Marx e Freud, entre a crítica material e a experiência simbólica, a obra percorre estudos de casos para exemplificar como as espacialidades urbanas podem ser deslegitimadas, atualizadas e vulgarizadas, abrindo caminho a novos processos de transformação. Entre alguns estudos de caso, autora apresenta Memelito, feito pelo Coletivo Saquinho de Lixo, e Tabernáculo da edificação, por Ventura Profana.
De acordo com Rita Velloso, professora de Arquitetura da UFMG, este livro recoloca em pauta “um pensamento cuja radicalidade desafiou o mundo no âmbito das artes, da política e do conhecimento. Quase todas as pessoas que atuam nesses campos dão conta, em alguma medida, de quem foram e o que fizeram pensadores como Guy Debord, Asger Jorn, Constant Nieuwenhuys. O que poucos conhecem, entretanto, são os caminhos e as engrenagens da reflexão filosófica daquele grupo desassombrado entre os anos de 1957 e 1974”.
“O desvio não se restringe mais a um movimento tido como internacional, mas que era vigente sobretudo no centro da Europa, naquele Maio de 1968; no livro, o termo designa uma atitude disseminada mundo afora, por periferias e centralidades, afirmada (ainda e mais uma vez) nos âmbitos artístico, político e estético. Por isso, é crucial o título proposto pela autora – deslegitimar, atualizar, vulgarizar –, indicando modos de agir”, explica Rita Velloso.
Principais pontos de articulação
Trazido aos dias de hoje, o desvio confronta a repercussão da produção do espaço urbano sobre os corpos, leva ao limite a crítica à transformação contemporânea da sensibilidade e mensura os gestos dos habitantes urbanos na medida de sua “resistência e revolução”, como pontua a autora.
Para Laura Castro, escrever sobre o desvio é pensar em como essa atitude filosófica “transforma materialidades ao descontextualizá-las de sua seriedade, exclusividade e elegância originais”.
No livro, ela defende que “os elementos materiais que compõem a arquitetura e as cidades, assim como os elementos pré-fabricados usados no campo das artes e do design, são passíveis de serem descontextualizados, plagiados, deslegitimados, atualizados e transformados”. No desvio, o corpo atua performativamente como mediador das transformações materiais e narrativas que são realizadas no espaço.
O primeiro passo para o desvio é Deslegitimar. O questionamento sobre modos de produção modernos estão presentes nas bases deste capítulo, no qual há uma tomada de consciência (de classe) da precariedade da vida cotidiana, bem como da espetacularização da imagem do capital.
Já o capítulo Atualizar analisa a experiência do uso dos espaços e das coisas a partir do corpo dos indivíduos e de seus efeitos na formação da sensibilidade contemporânea. A atualização se refere à possibilidade de perceber, interpretar, rearticular e partilhar os modos de usar um elemento material que já passou pela etapa sociopolítica de deslegitimação.
A atualização no desvio considera a importância da memória, dos afetos e dos desejos para que objetos pré-existentes sejam usados e transformados por meio de partilhas narrativas coletivas. A atualização de elementos simbólicos existentes nos materiais desviados nega a tábula rasa que enaltece o mito da criação absoluta e que desconsidera a continuidade de processos urbanos passados no presente.
Em Vulgarizar, Laura Castro explica que o desvio entende a intenção inicial proposta por quem produziu a materialidade, mas que, em sua instância narrativa e performativa, a desobedece e a transforma. O vulgar se revela como gesto de resistência e de revolução. A transformação que se dá pelo corpo.
No desvio, a vulgarização se manifesta performativamente, por abordagens plásticas, narrativas e midiáticas experimentadas pelo corpo que transforma as materialidades. O argumento em defesa da vulgarização se baseia na crítica feita pelos situacionistas contra a elitização das formas de arte acadêmicas e à necessidade de reconhecer as experiências estéticas do cotidiano.
Sobre a autora
Laura Fonseca de Castro é arquiteta e urbanista, doutora pela UFMG e pesquisadora das relações críticas entre imagem, corpo e espaço. É professora de história da arte, de teoria da arquitetura e de projeto na PUC Minas. Lidera o grupo de pesquisa PIRA – Políticas da Imagem e da Representação Arquitetônica – e integra os grupos Cosmópolis; Arquitetura, Derrida e Aproximações; e Design e Fabricação Digital. É coordenadora editorial do periódico Cadernos de Arquitetura e Urbanismo, da PUC Minas.
Trecho do livro
“A arquitetura e a cidade, manifestações do espaço no tempo, são suportes para as interações dos corpos e para as transformações das ideias. As ações cotidianas se dão nelas e através delas. Nunca apenas diante delas.” (p. 49)
Especificações técnicas
Título: Deslegitimar, atualizar, vulgarizar: o (anti)método do desvio
Autora: Laura Fonseca de Castro
ISBN: 978-65-5090-039-7
Categorias: Arquitetura, Urbanismo, Estética, Filosofia da Arte
Encadernação: Brochura
Formato: 15,5 × 22,5 × 1,7 cm
Páginas: 260
Peso: 0,4 kg
Edição: 1ª (dez. 2025)
Preço de capa: R$ 75,90

Comentários